Apontamentos 01
"São 3 da manhã... mentira, são praticamente 4. Hoje ele disse que ia ser diferente e eu voltei a acreditar, eu sei... eu sei... não precisam de o dizer novamente. Embora saiba que têm razão o sentimento de perda é demasiado para mim, não apenas a perda em si, mas o facto de estar a passar uma borracha pelo futuro que desenhamos juntos. Se ao menos pudesse entender, como numa partida de xadrez, onde foi que eu perdi o controlo? Onde foi que tudo começou, sem me aperceber, a descambar? Será que ontem ainda havia volta a dar? Não! Ontem já era tarde..." - suspirou, olhando pela enorme janela enquanto uma pequena brisa balançava os seus cabelos numa noite quente de verão. Estava a falar sozinha, mas depois de tudo, quem não estaria? Ao menos o vento não dava falsas esperanças.
No espaço de 24h a sua vida mudará de tal forma que era impossível assimilar tudo o que isso implicava, foram demasiadas promessas, demasiado tempo dedicado a ele. E agora? Como poderia ela pensar adiante sem o colocar na equação?
O pior nem é o facto de acreditar, ou não, que não há volta a dar. O pior é o vazio que nos invade cada vez que imaginamos o futuro, a dor de não lhe podermos ligar para sermos reconfortados. E a acrescentar a isto tudo, parece que estamos sozinhos e, desesperadamente, queremos arranjar alguém para ocupar o lugar que está vazio.
O sol já raiava no céu faz tempo, mas ela ainda permanecia imóvel, de olhos abertos sob os lençóis. A pequena brisa que invadia o seu quarto percorria o seu corpo desnudo, acalmando os seus pensamentos e lembrando-a de que estava viva e que a vida não parara só porque ela decidiu.
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